* O texto a seguir foge dos padrões de tamanho do blog. Desta vez foi fundamental fazer algumas divagações “extras” para chegar ao foco do raciocínio.
PORTO ALEGRE (sol tropical) | No início dos anos 1990 a RBS TV assinava todos os vídeos institucionais de sua programação com o slogan “Uma emissora a serviço da comunidade”. Sua missão, desde então mais negocista que humanitária, via a tal “comunidade” como seu principal mercado, foco direto de atuação. Com programas de cor local, como Campo & Lavoura e Galpão Crioulo, a emissora criada por Maurício Sirotsky Sobrinho na longínqua década de 60 abocanhava a publicidade do interior gaúcho sob a falsa égide da prestação de serviço.
Os tempos passaram e nada mudou muito, mas a diferença é que hoje já não existem mais o slogan politicamente correto e suas supostas intenções benevolentes. Ao contrário, a RBS cada vez mais escancara sua verve comercialesca, interesseira e manipuladora.
A seguir, um exemplo “local”. Vem de lá, da “cidade surreal”.
Durante a virada do ano, a notícia de que a tarifa do transporte coletivo de Rio Grande seria reajustada começou a circular pela cidade. No dia 4, uma quarta-feira, o jornal Agora cobriu a história, ouvindo as queixas da população – obviamente revoltada com o possível reajuste. O serviço de ônibus rio-grandino é terceirizado por um consórcio composto por duas empresas, a Cotista e a Noiva do Mar. A última, subsidiária do grupo Bemfica (fundado em São Caetano do Sul, SP, em 1955) detém o direito de exploração de quase todo o mapa da cidade, um semi-monopólio que já dura mais de trinta anos e que tem confusas – e nada ingênuas – relações com a política local.
O tal consórcio oferece um serviço de qualidade duvidosa, fruto de repentinos protestos na cidade. O preço atual das tarifas urbanas é de R$ 2,35, índice considerado alto se comparado ao da maioria das capitais brasileiras – todas com população maior que Rio Grande. Mesmo assim, as duas empresas consideraram que o preço da passagem está defasado e sugeriram a nada módica quantia de R$ 3 (mesmo preço cobrado em São Paulo), como novo índice. O Ministério dos Transportes, através de um conselho responsável por averiguar o assunto tecnicamente, disse que o valor ideal é de R$ 2,65. Os aumentos sugeridos pelo consórcio e pelo Ministério – 28% e 13%, respectivamente – vão muito além da inflação acumulada de 2011, que foi de 6,5%.
Noticiada pelo Agora, o assunto foi parar nas mãos do prefeito Fábio Branco – que não era nascido quando o transporte público de Rio Grande virou caso de polícia. Ele deveria definir o reajuste ainda naquela semana e, no dia 5, o tema tomou conta das rodas de conversa e das apinhadas filas que se formam todos os dias nas lamentáveis estações de transbordo criadas pela Prefeitura Municipal como parte de seu programa de “integração” do transporte coletivo. Foi em uma destas estações, no dia anterior, que um grupo liderado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) e pela União da Juventude Socialista (UJS) realizou um protesto noticiado com cautela e timidez pelo Agora e pelo Diário Popular, de Pelotas. A manifestação desencadeada contra o aumento no preço das passagens terminou com a chegada da Brigada Militar, depois de congestionamentos e tumultos envolvendo motoristas e manifestantes. Como sempre, os jornais cobriram o fato com parcialidade, dando ênfase ao suposto caráter vandálico do ato.
Ventilado pela imprensa escrita e com ampla repercussão na Internet, esperava-se que o principal meio de comunicação do município – a televisão – fizesse, pelo menos, uma ligeira menção ao protesto. Não foi o que aconteceu. Na quinta-feira, um dia antes da definição de Fábio Branco sobre o novo preço das passagens (que acabou não acontecendo), o Jornal do Almoço, da RBS TV Rio Grande, preferiu silenciar sobre o caso. À noite, no RBS Notícias, o mutismo continuou. Naquele dia, dos cerca de sete minutos diários de programação local a que tem direito, a TV Rio Grande exibiu matérias sobre a próxima safra do camarão, sobre o novo plantel do Sport Club São Paulo e até sobre o privilégio dos veranistas que podem estacionar seus automóveis à beira da Praia do Cassino – uma pauta de quase dois minutos dedicada a um dos maiores clichês turísticos rio-grandinos, verdadeiro acinte ao telespectador. Ao vivo, ainda no Jornal do Almoço, a repórter Thaís Abrão aproveitou os últimos segundos do telejornal para entrevistar uma comunicadora da rádio Atlântida FM (pertencente ao mesmo grupo RBS) a respeito das novidades da emissora para o verão.
Nenhum segundo foi destinado ao aumento das passagens. E muito menos aos protestos de 24 horas antes.
Imediatamente, entrei em contato com Thaís Abrão, questionando-lhe sobre do mutismo do Jornal do Almoço. A jornalista, uma novata de duvidoso talento, disse que encaminharia meu comentário à coordenadoria da emissora. E foi mais longe: “Mas o telespectador é livre” – encerrou o assunto, sugerindo que os televidentes insatisfeitos trocassem de canal. Ao invés de trabalhar “a serviço da comunidade”, a RBS TV Rio Grande preferiu oferecer ao público a opção mais eficaz do controle remoto, o zapping.
Acontece que esta opção não existe em Rio Grande. Inaugurado em outubro de 1977, durante a ditadura Geisel, o canal 9 não precisou de muito investimento para abocanhar a liderança da audiência (mais de 70%, de acordo com as últimas pesquisas do IBOPE). Instalada em módicas salas de um edifício onde também funciona o Hotel Atlântico (ex-Charrua), bem no Centro de Rio Grande, a RBS local conta com um equipamento obsoleto e uma equipe pequena e preguiçosa, formada na nada nobre escola do “shownalismo” global (para usar uma expressão consagrada pelo professor Wladymir Ungaretti). A ZYB 613, nome técnico da TV Rio Grande, possui dois canais VHF, o 9 e o 7. Ambos são analógicos e o último é responsável por transmitir a programação para o Balneário Cassino – não sem queixas dos telespectadores, que reclamam da péssima qualidade do sinal.
A emissora lidera a audiência em todos os horários, mas, ironicamente, não há concorrência.
Ou quase. De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações, Rio Grande possui oito retransmissoras de televisão, responsáveis por exibir programas de outras geradoras sem produzir conteúdo local. Neste sistema, estão representadas em terras papareias TVE, TV Canção Nova, TV Bandeirantes, TV Nativa (Record), TV Independente (Rede Vida), TV Zona Sul (RedeTV!) e SBT. Ainda conforme a Anatel, a cidade possui duas geradoras VHF: a própria TV Rio Grande LTDA (nome de registro da RBS TV) e a desconhecida Farol Radiodifusão LTDA, o canal 11, cujo provável proprietário é o auto-intitulado “missionário” R.R. Soares, da eletro-evangélica Igreja Internacional da Graça de Deus. Somente a RBS TV Rio Grande produz programação própria, incluindo os comerciais que veicula.
Contudo, apesar da supremacia no extremo sul do Estado, o reinado da emissora é pequeno. A RBS TV Rio Grande está a apenas 37 quilômetros de sua co-irmã, a RBS TV Pelotas. Em nenhum outro lugar do Brasil duas emissoras da Rede Globo no mesmo estado têm tamanha proximidade. O fato – curioso à primeira vista – acaba sendo importante para entender a precariedade da TV Rio Grande. Como sua área de cobertura abrange apenas dois municípios (Rio Grande e São José do Norte), a população que recebe o sinal não chega aos 250 mil habitantes, um número pouco expressivo em comparação a outras sedes regionais da RBS. Para que se tenha uma idéia, as TVs Bagé e Uruguaiana – as duas menores da rede, depois da sucursal de Rio Grande – abrangem oito municípios cada uma, 275 mil e 343 mil telespectadores, respectivamente.
A inexpressividade do raio de alcance da RBS TV Rio Grande certamente explica o desinteresse do grupo capitaneado pelos Sirotsky em investir seus preciosos reais na mais maltrapilha de suas onze filhotes. O mesmo argumento talvez explique, também, a linha editorial e as escolhas nada comunitárias da pequenina emissora. Empenhada em fazer seus telejornais com pouco custo material e intelectual, há anos a emissora rio-grandina optou por uma linha light, sem confrontos e polêmicas – sobretudo quando “inconvenientes”. Além de reproduzir o pensamento geralmente reacionário da nave-mãe de Porto Alegre, a TV local também é pródiga em criar seus próprios – e nada ortodoxos – meios de “fazer jornalismo”. E é aí que uma inofensiva matéria sobre os perigos dos raios ultravioleta pode virar uma bela vitrine para alguma conhecida clínica dermatológica de Rio Grande; ou um festival de danças e teatro pode se transformar num colorido (e disfarçado) comercial de uma rede de ensino local; ou pode acontecer ainda de uma matéria sobre os tipos de cuidados exigidos por quem tem um cãozinho de estimação se transformar, num passe de mágica, numa divertida propaganda de um pet shop qualquer. Enfim, vale tudo no jabaculê jornalístico rio-grandino.
Vale, inclusive, ocultar. Foi assim no “Caso Golbery”, tratado tardiamente, com displicência e deboche, pela TV local; ou, mais recentemente, no episódio do aumento das passagens, que até agora não ganhou sequer um dos preciosos (e rentáveis!) cerca de 500 segundos diários de programação produzida in loco, beneficiando a empresa concessionária do transporte coletivo – interessada em manter escondidas suas ambiciosas pretensões – e ao prefeito que, de olho no pleito de outubro, prefere fazer de conta que nem era nascido quando começaram com esta história de aumentar preço de passagem.
Quem se dana, no final, é o telespectador à procura do tal “a serviço da comunidade”. Porque na “cidade surreal” é assim: notícia só é notícia quando é boa para os negócios.