PORTO ALEGRE (e faz tempo…) | Sobre os polêmicos SOPA e PIPA, nada de muito profundo a declarar. Só hoje, com um pouco de paciência e tempo, descobri que significam Stop Online Piracy Act e Protect IP Act, respectivamente. E que são leis estadunidenses que visam barrar o descontrole da troca de informações pela Internet.
Censura, em termos bem claros. É evidente que os governos de todo o mundo já se deram por conta de que a Internet deixa toda a maracutaia e falcatruagem menos fácil, que sempre haverá vazamento de informação “secreta” e que é melhor parar essa coisa toda antes que todos se dêem por conta de que nosso mundinho, esse sim, é que não está sopa. Censurar, proibir, derrubar, prender e exterminar os sites “piratas” e seus cabeças é, definitivamente, mais fácil do que mudar hábitos já tradicionais. Faça-se a lei, pois – pensam os congressistas ianques.
Mais por intuição que por conhecimento de causa, suponho que o tiro sairá pela culatra. A Internet está popularizada há mais de dez anos e é bastante difícil imaginar que duas ou três leis serão suficientes para implodir um sistema que é, achemos isso bonito ou não, baseado na incontrolável troca de todo o tipo de informação. Haja a lei que houver, sempre haverá antídoto.
O problema é que, enquanto os antídotos não vêm, nós, ratos de Internet, padecemos no purgatório das ausências. Ontem, o FBI fez desaparecer o Megaupload, um dos maiores sites de compartilhamento do mundo, inimigo de morte das indústrias fono e cinematrográfica – duas moribundas que não souberam se reinventar na hora certa e agora preferem apelar. O Megaupload é o servidor onde estão hospedados quase todos os discos de tango dos dois melhores blogs argentinos do gênero – ambos parada obrigatória semanal deste que vos bloga. Inegavelmente, o site é um dos responsáveis diretos pelos meus cerca de 100 gigabytes de música latino-americana, mais ou menos 1.600 discos através dos quais conheci não apenas a obra de artistas fundamentais, como também a própria cultura dos países de onde eles provêm. Se não fosse pelo compartilhamento de tantas produções musicais, possivelmente eu nada soubesse do tango e do folklore platenses, por exemplo.
E mais: não fosse isso a que chamam de “pirataria”, eu jamais teria podido escrever minha dissertação de mestrado, pelo menos nos moldes em que ela foi construída. Teixeirinha, objeto dos meus estudos por quase seis anos, é só um dos tantos artistas desaparecidos que não tiveram sua produção musical reeditada na íntegra, nobre ação que foi parar nas mãos dos sempre altruístas fãs – gente de boa fé que, ao invés de esconder a música de seu ídolo, digitaliza e disponibiliza os discos dele para que todos possam ouvi-lo, coisa que a indústria se nega a fazer.
Só que aí, na contramão absoluta da História, vem o capitalismo com sua mania de sabichão e tenta impor, com leis de siglas “trocadilhescas” (pelo menos para nosostros), toda uma “nova” lógica sem noção da realidade, sem preocupação genuína com o cultural e sem qualquer autocrítica – que, se houvesse, escancararia todo o vasto elenco de bobagens da indústria da cultura nas últimas duas décadas.
Esse mundinho virou uma grande porcaria.