Sobre Chico Cougo

Historiador, professor, “rato” de arquivo e piloto virtual nas horas vagas. Nasceu em Rio Grande (RS), no longínquo 1987. Diz que não morre sem ver um brasileiro campeão de F1 e torce pelo Sport Club Rio Grande. É fã de Carlos Gardel, baba por Soledad Pastorutti e pesquisa a vida e a obra de Teixeirinha. Atualmente, vive em Porto Alegre, onde revira porões empoeirados e curte o tempo, “tesoro que se roba sin sentir”. Email: chicocougo@gmail.com . No Twitter, @chicocougo

RÁDIO CHICO

PORTO ALEGRE (tudo lindo) | Zeca Baleiro fez um discão, “O disco do ano”, seu novo lançamento. O Baleiro, aliás, é um dos artistas mais originais da música brasileira há tempos. É inteligente, sutil e crítico, além de conhecer bastante do universo musical “profundo” do Brasil, vide suas frequentes incursões pelo universo brega/cafona.

É uma pena que a maior parte de seus fãs não tenha a mesma curiosidade.

“O disco do ano” traz Mamãe no Face, uma canção que é ironia pura, fala da “crítica musical” e sobre o que é fazer sucesso na música brasileira.

Ficou boa demais.

NO FACE

PORTO ALEGRE (curta lá!) | Tenho sido adicionado no Facebook por vários desconhecidos, a maioria leitores do blog que querem acompanhar minhas atividades também em outras plagas. Como meu perfil é estritamente pessoal – e, portanto, contém informações que eu nem sempre quero que sejam conhecidas por todos – tempos atrás criei uma página para o blog no Face.

Não deu muito certo, porque poucas pessoas curtiram e eu sempre esquecia de atualizá-la, mas como a demanda aumentou, resolvi reinvestir na ideia.

Sendo assim, portanto, peço a todos que curtam a página do Memórias no Facebook. Por lá irei divulgar não apenas o que tenho escrito aqui, mas também algumas alfinetadas rápidas, bem típicas das redes sociais.

Para curtir (verbo que no jargão da Internet é o mesmo que seguir) a página do blog no Facebook, basta clicar aqui.

Já aproveito o ensejo para avisar que o blog voltará a uma rotina mais frequente de postagens. O blogueiro andava meio sem tempo, mas as turbulências diminuíram e há muito sobre o que escrever.

FELIPÃO

PORTO ALEGRE (só os bons) | Defendeu sua dissertação de mestrado hoje, na UFRGS, o Felipe Nóbrega Ferreira, também conhecido como Felipão, Phil, Nobre Nóbrega ou, simplesmente, O Matuto.

A filhota do Felipe: Ao sul do sul o mar também é pampa: sensibilidades de verão na Villa Sequeira, Rio Grande/RS (1884-1892). O tema central, pelo que entendi, é a formação de uma “ideia de praia” que foi se forjando ao longo dos anos em torno do que hoje chamamos de Balneário Cassino. Um trabalho considerado pelas professoras da banca como denso, fundamental e de excelência. Felipão pesquisa o tema desde 2007, além de ser “cassineiro” de nascença e criação.

Se bem que ele continua chamando a praia de Villa Sequeira.

Penso que, aos poucos, com responsabilidade e competência, a turma vai reescrevendo a História de Rio Grande: sem taças cortadas pela metade, sem polêmicas vãs e sem bobagens pitorescas com ar de Wikipédia, mas sim problematizando, levantando fontes, rediscutindo velhas “verdades” e colocando outros locais e gentes no longo ciclo da historiografia. É verdade que a nova geração também tem suas falcatruas – uma gente que não vale muito à pena e que bebe muito da velha escola elitista que se acostumou a escrever a História dos riograndinos ricos – mas hoje há equilíbrio de perspectivas. Escreve-se sobre escravidão, sobre trabalhadores das fábricas, sobre músicos anônimos e seus festivais e até sobre a praia.

Estamos evoluindo, pois.

Este blog registra sinceros parabéns ao ‘Nobre Nóbrega’ que termina seu mestrado tão calvo quanto este que vos bloga.

EU ME MUDEI

PORTO ALEGRE (mil e um) | A última da “cidade surreal” é a mais do que infeliz sugestão da primeira dama de Rio Grande (e ex-vereadora, pelo PMDB) Luciane Compiani. No início da semana, a mulher de Fábio Branco discutiu com uma cidadã papareia e eleitora sua através da rede Facebook. Lu Compiani não digeriu bem as críticas à administração municipal publicadas na rede. Como resposta, a ex-vereadora lançou a seguinte máxima: “Tá ruim? Te muda!”

A pouco digna arte da família Branco em se enroscar tanto com tão poucas palavras é caso a ser estudado.

Muito bem: tenho algumas considerações.

Eu me mudei. Foi no início de 2008, entre outros muitos motivos, porque a “cidade histórica” (assim alguém intitulou Rio Grande, um dia) nunca fez questão de criar espaços de trabalho para os historiadores que sua universidade federal forma, assim como, até hoje, não elaborou um plano ordenado de preservação e exploração turística de seu conjunto arquitetônico histórico, nem criou um arquivo público municipal organizado e acessível e nem fez muita questão de intervir na Bibliotheca Rio-Grandense e no monopólio da informação histórica que ela abriga. História em Rio Grande é matéria de quinta categoria, um amontoado de fatos pitorescos e personagens de índole duvidosa (alguns grotescos), como um tal Golbery do Couto e Silva, milico golpista homenageado à exaustão por vereadores e prefeito em cerimônias públicas que mais demonstram a acefalia de conhecimento político e contexto histórico dos mandatários locais do que suas convicções ideológicas. Na “cidade surreal”, os historiadores não são importantes, afinal, a maior parte da História aconteceu quando ainda nem éramos nascidos.

Eu me mudei. E, aliás, isso não me impediu de seguir preocupado com os rumos do lugar onde nasci e vivi durante 20 anos, as duas décadas mais importantes da minha curta e pouco importante existência. Segui (e sigo) aflito com os rumos de uma administração sem projeto, eivada por frases e realizações desastrosas, como o sistema de transporte público – condenado pela lei e pelo povo. Minha mudança também não me impediu de continuar achando que Rio Grande está entregue à politicagem das flores, do asfalto, das cerimônias de quinze anos coletivos e das obras que nunca terminam – porque quanto mais se prolongam, mais impressionam aos eleitores (pelo menos é isso que pensam os donos do poder).

Eu me mudei. E isso não me faz menos rio-grandino, ou menos inconsciente dos rumos de minha cidade, um lugar abandonado à própria sorte (ou ao azar), iludido pela bonança de um polo naval que – cinco anos e uma plataforma depois – ainda não se transformou em benefício social.

(A propósito: interessante a quantidade de dinheiro gasto pelas empresas do polo em “ações cidadãs” – cadernos no Agora, ações de apoio às crianças carentes, programetes na RBS, financiamento de livros etc. Lembra bastante o que a falecida Refinaria de Petróleo Ipiranga fazia, nos idos da década de 80. Suas empresas destruíam o ecossistema local, mas financiavam museus para lembrar de como a costa papareia havia sido rica, um dia. Uma lógica interessante, no mínimo: destruímos sua casa com poluição, mas faremos um museu contando como ela era antes do fim. Danadinho, esse capitalismo).

Eu me mudei e seguirei pentelhando a respeito do que fomos e somos, com estes políticos pífios, onde empresas mandam, o poder público obedece e tudo segue como se não fôssemos nem nascidos. Continuarei dizendo – apesar de ter me mudado – que a imprensa local é conivente com a sacanagem, que é um absurdo que existam vereadores e prefeito simpatizantes (e militantes!) da censura e dos ditadores, que não é possível seguir sem projeto (e esta crítica se estende aos candidatos da eleição vindoura, esses que fazem de conta que sabem o que farão caso vençam em outubro), que não basta rezar para que o passado nefasto não volte a se repetir (rezar foi a recomendação da própria Lu Compiani, quando ainda era vereadora, por ocasião do “Caso Golbery”), que é inconcebível lidar com mandatários e legisladores tão despreparados e que é, no mínimo, insolente a opinião da primeira dama a respeito dos descontentes com a administração da qual ela fez (faz?) parte.

Eu me mudei, mas a maioria dos rio-grandinos não querem, não podem e não vão se mudar. O que eles podem, isso sim, é mudar. Criticando, apontando falhas, contestando e mostrando que “se mudar” não é solução – a não ser na mentalidade torta de quem sugere isso. Eu me mudei e talvez nós mudemos, um dia. Para que pessoas como a primeira dama aprendam, de uma vez por todas, que os problemas e as críticas estão aí para serem refletidos.

E não para que se fuja deles.

MIL

PORTO ALEGRE (me gusta así) | Este é o milésimo post deste breviário memorialístico e, como sou dado a efemérides, vale uma reflexão rápida.

São quase 4 anos de blog, mais 186 mil visitas, quase mil comentários e algumas vitórias. Como já disse outro dia, este balaio de pensamentos surgiu da necessidade de externar algumas agruras produzidas pela mente deste, desde 2008, exilado econômico-cultural. De lá para cá, escrevi sobre mulheres, carros, futebol, relacionamentos, política, história, Rio Grande, tango e outra pá de assuntos, alguns chatos, outros instigantes.

A maioria dos meus textos são ruins ou, quando muito, medianos. Quando acerto a mão, o ibope sobe. Foi assim com “Sobre a banalização do amor”, de 2009, e com “Golbery e a cidade surreal”, de 2011. Temas diferentes, audiência alta. O povo que passa por aqui também é bagunceiro e gosta da diversidade do blog.

Se somadas, as mil postagens escritas até hoje formariam um livro de mais ou menos um milhar de páginas, uma obra maior do que minha dissertação de mestrado, por exemplo (cinco vezes maior, na realidade). E quando penso no tanto que já escrevi, me espanto.

De onde sai tanta letrinha?

Algo me diz que o mundo me inspira, ainda que seja a grande porcaria que é. E eu espero que assim continue sendo.

A minha inspiração, não o mundo.

O mundo eu quero mais é que melhore.

UM LUGAR NO MUNDO

PORTO ALEGRE (quero voltar) | Existe um lugar ao sul do mundo, certo paisito espraiado entre dois grandões arrogantes que brigam por pouco, travestidos de superpotências. Nesse lugar, de onde brotaram o tango, Zitarrosa, Galeano, Benedetti e outros ímpares mais, há uma cidade à beira de um rio. A cidade é Montevidéu. O rio é o da Prata.

Quero viver em Montevidéu para sentir o Prata batendo nas pedras da Rambla a cada entardecer.

Descrever o Uruguai e sua capital é tarefa inglória, pois difícil. No mundo vil que só busca o metal pouco precioso, que anda, que corre, que se desatina e vive grudado em celulares, facebooks e ipods, saber que existe uma Montevidéu de velhinhos sem pressa, crianças que brincam de ser crianças e pessoas que não tem pressa – porque o capitalismo de lá é meia boca, com orgulho – é um alento. O paisito e sua capital são lugares inimagináveis para os padrões atuais: lá, diferente daqui, os pedestres respeitam sinaleiras, os prédios são velhos e charmosos, as ruas são tomadas por plátanos e folhas secas, os cartazes convocam para marchas de todos os tipos e contra todo o tipo de opressão, as manifestações são movidas à batucada do candombe, os Mercedes dividem espaço com Alfas dos anos 60, os coreanos emigrados para o porto tomam pomelo e riem nas praças, as moçoilas e os rapagões flertam nas carrocinhas de pancho, o garçom do La Pasiva atende aos clientes esbravejando contra a zaga do Peñarol, os kioskos vendem chaveiros e ímãs de geladeira com a efígie de Gardel (uruguayo, por supuesto!), os meninos jogam bola nas ruas do centro, o mundo se divide entre preto-e-amarelo e vermelho-branco-e-azul, os cassinos pululam de velhos e velhas vidrados nas maquinetas, as praças (lindas que só) estão sempre cheias de gente aproveitando o sol e a grama, os jovens panfleteiam na 18 de Julio anunciando as internas da Frente Ampla e os camelôs são politizados.

Sim, politizados.

Na Plaza Cagancha, em pleno centro montevideano, parei numa barriquinha e perguntei o preço da bandeira dos Treinta y Tres Orientales, um manto nas cores azul, branco e vermelho cortado pela insígina “Libertad o muerte”. 250 pesos, 25 reais, o preço. Comprei e recebi de volta uma aula de História. “Esta é a bandeira do povo, a verdadeira bandeira do nosso povo. A outra é uma invenção. A verdadeira bandeira do povo é esta” – me disse o vendedor, sorriso largo e simpático, certamente muito bem educado em algum Liceo público e laico que lhe ensinou a História daquele pedacinho de ex-colônia que um dia foi Brasil e que hoje se chama Uruguai.

Nuestro país, como dizem com tanto orgulho os uruguaios.

A vida inteira sonhei em conhecer Buenos Aires. Fiz planos, escrevi listas de lugares “a visitar”, mentalizei o mapa da cidade e marquei datas que nunca saíram do papel. Por estas circunstâncias várias e que dão gosto à vida, Montevidéu – sem planos, sem listas e sem mapas – apareceu antes, no meio do caminho. Ainda vou conhecer a capital argentina, claro, mas é certo que estar no lado uruguaio do rio foi uma das experiências de toda a vida.

Aliás, não reparem a ausência do rio, o Prata. Estar diante do imenso aguaceiro que divide dois mundos e une uma cultura inteira – a platina – me causou um impacto tão grande que não tenho palavras para descrever o que vivi, senti e respirei. Para quase todos, o Prata é um rio lindo costeado por uma Rambla igualmente fascinante, uma paisagem de cartão-postal, inesquecível. Para mim, o Prata é o suprassumo de anos e anos cevados por tangos e milongas, poesias discepolianas, sons de bandoneón e guitarra, vozes de Julio Sosa e Carlos Gardel, enfim, um mundo a parte. Estar diante daquelas águas agitadas e barulhentas foi como viajar para um mundo que é só meu, o do Solís recebendo meus maiores ídolos, o dos casarões da Ciudad Vieja exalando seu ar tanguero e atorrante, a vida em 2 por 4 e preto & branco.

Fechar os olhos em Montevidéu me fez ouvir tango. Sentir a água do Prata viajando de um lado ao outro, também. E se havia alguma dúvida sobre, afinal, quem sou, não há mais.

Sou platense. E não há vacina que me cure.

(Até porque, e é necessário frisar, poucas vezes tive tanta vergonha em ser brasileiro. Andar pelas ruas de Montevidéu e ver meus compatriotas empinados em seus saltos-agulha, ostentando chapéus de turista europeu, fotografando tudo nos lugares e momentos mais inadequados, invadindo lojas em busca de promoções, gritando e rindo dos hábitos e costumes uruguaios, tirando onda de “somos primeiro mundo” nas praças montevideanas (mais limpas e civilizadas que qualquer praça aqui do “primeiro mundo”), jorrando dinheiro em tudo que é fútil, visitando todos os lugares-clichê e ignorando toda a “cultura local”, entrando em museus para dar risada e esculhambar os simpáticos guias turísticos, se enchendo de sacolas carregadas de “lembrancinhas” (reconhecer brasileiros é fácil: basta identificar os seres segurando o maior número de sacolas possível) e falando um português rápido e cheio de gírias, justamente para dificultar a vida dos nativos, é triste. Tão triste quanto visitar o Museu Torres Garcia – dedicado à obra de um dos grandes artistas uruguaios – e presenciar uma brasileira, cheia de sacolas e com ar de madame, ordenar para a balconista da loja de souvenires: “me diz aí quem é esse tal de Torres”. Brasileiros…)

Algo me diz – e aqui encerro este texto eternamente incompleto – que voltarei muitas e muitas vezes à Montevidéu. Um dia, se possível, quero morar lá. É um lugar tranquilo e honesto, bom para viver feliz e sem pressa ao lado do que (e de quem) se gosta. Viveria tranquilo no Uruguai, acordando cedo para ouvir rádio e tomar mate, caminhando pela Rambla, comprando laranjas e salame na Tristán Narvaja (mais que uma feira, um universo à parte), assistindo à Francis Andreu na Sala Zitarrosa e acreditando, afinal, que Gardel é mesmo uruguaio.

URUGUAS

MONTEVIDÉU (orientales) | Este é um post automático, o que significa que foi escrito antes (e em Porto Alegre) da hora de sua publicação. O servidor que abriga o blog oferece esta opção: escrevo o que quiser, programo para que seja publicação em qualquer outra hora e, na conforme o agendamento, o post vai ao ar – como se eu pudesse prever o futuro.

Muito bem. No momento em que este texto vai vira postagem, estou chegando em Montevidéu. Opa, mas o plano não era Buenos Aires?, perguntará alguém mais afoito. Era. Só que a chance de conhecer a capital uruguaia apareceu primeiro. Foi tudo meio rápido, planejado às pressas e sem piração. Um ônibus, umas roupas na mala, um roteiro-base, uns dinheiros e pronto: Uruguai.

Ou melhor: Uruguay.

Provavelmente não postarei nada in loco desde a capital uruguaia. Vou passar quatro dias, quero conhecer um monte de coisas e lugares e não levo computador. Na volta, conto como foi.

Por enquanto, fica apenas a expectativa: aqui nasceu o tango e Zitarrosa. Há uma rua chamada Carlos Gardel e outra La Cumparsita. Alguns de meus poucos ídolos cantaram no Teatro Solís e um de meus escritores favoritos (Eduardo Galeano) toma café e pensa em seus próximos livros andando pela Rambla. A música típica é o candombe, os prédios são velhinhos e sempre há a chance de cruzar pelas ruas com os rapazes do Ricacosa, com a Francis Andreu ou com a Malena Muyala.

Não pode ser uma viagem ruim.

Sem falar que o Rio da Prata vai estar logo ali, pertinho que só. Vai ser um encontro e tanto.