
PORTO ALEGRE (quero voltar) | Existe um lugar ao sul do mundo, certo paisito espraiado entre dois grandões arrogantes que brigam por pouco, travestidos de superpotências. Nesse lugar, de onde brotaram o tango, Zitarrosa, Galeano, Benedetti e outros ímpares mais, há uma cidade à beira de um rio. A cidade é Montevidéu. O rio é o da Prata.
Quero viver em Montevidéu para sentir o Prata batendo nas pedras da Rambla a cada entardecer.
Descrever o Uruguai e sua capital é tarefa inglória, pois difícil. No mundo vil que só busca o metal pouco precioso, que anda, que corre, que se desatina e vive grudado em celulares, facebooks e ipods, saber que existe uma Montevidéu de velhinhos sem pressa, crianças que brincam de ser crianças e pessoas que não tem pressa – porque o capitalismo de lá é meia boca, com orgulho – é um alento. O paisito e sua capital são lugares inimagináveis para os padrões atuais: lá, diferente daqui, os pedestres respeitam sinaleiras, os prédios são velhos e charmosos, as ruas são tomadas por plátanos e folhas secas, os cartazes convocam para marchas de todos os tipos e contra todo o tipo de opressão, as manifestações são movidas à batucada do candombe, os Mercedes dividem espaço com Alfas dos anos 60, os coreanos emigrados para o porto tomam pomelo e riem nas praças, as moçoilas e os rapagões flertam nas carrocinhas de pancho, o garçom do La Pasiva atende aos clientes esbravejando contra a zaga do Peñarol, os kioskos vendem chaveiros e ímãs de geladeira com a efígie de Gardel (uruguayo, por supuesto!), os meninos jogam bola nas ruas do centro, o mundo se divide entre preto-e-amarelo e vermelho-branco-e-azul, os cassinos pululam de velhos e velhas vidrados nas maquinetas, as praças (lindas que só) estão sempre cheias de gente aproveitando o sol e a grama, os jovens panfleteiam na 18 de Julio anunciando as internas da Frente Ampla e os camelôs são politizados.
Sim, politizados.
Na Plaza Cagancha, em pleno centro montevideano, parei numa barriquinha e perguntei o preço da bandeira dos Treinta y Tres Orientales, um manto nas cores azul, branco e vermelho cortado pela insígina “Libertad o muerte”. 250 pesos, 25 reais, o preço. Comprei e recebi de volta uma aula de História. “Esta é a bandeira do povo, a verdadeira bandeira do nosso povo. A outra é uma invenção. A verdadeira bandeira do povo é esta” – me disse o vendedor, sorriso largo e simpático, certamente muito bem educado em algum Liceo público e laico que lhe ensinou a História daquele pedacinho de ex-colônia que um dia foi Brasil e que hoje se chama Uruguai.
Nuestro país, como dizem com tanto orgulho os uruguaios.
A vida inteira sonhei em conhecer Buenos Aires. Fiz planos, escrevi listas de lugares “a visitar”, mentalizei o mapa da cidade e marquei datas que nunca saíram do papel. Por estas circunstâncias várias e que dão gosto à vida, Montevidéu – sem planos, sem listas e sem mapas – apareceu antes, no meio do caminho. Ainda vou conhecer a capital argentina, claro, mas é certo que estar no lado uruguaio do rio foi uma das experiências de toda a vida.
Aliás, não reparem a ausência do rio, o Prata. Estar diante do imenso aguaceiro que divide dois mundos e une uma cultura inteira – a platina – me causou um impacto tão grande que não tenho palavras para descrever o que vivi, senti e respirei. Para quase todos, o Prata é um rio lindo costeado por uma Rambla igualmente fascinante, uma paisagem de cartão-postal, inesquecível. Para mim, o Prata é o suprassumo de anos e anos cevados por tangos e milongas, poesias discepolianas, sons de bandoneón e guitarra, vozes de Julio Sosa e Carlos Gardel, enfim, um mundo a parte. Estar diante daquelas águas agitadas e barulhentas foi como viajar para um mundo que é só meu, o do Solís recebendo meus maiores ídolos, o dos casarões da Ciudad Vieja exalando seu ar tanguero e atorrante, a vida em 2 por 4 e preto & branco.
Fechar os olhos em Montevidéu me fez ouvir tango. Sentir a água do Prata viajando de um lado ao outro, também. E se havia alguma dúvida sobre, afinal, quem sou, não há mais.
Sou platense. E não há vacina que me cure.
(Até porque, e é necessário frisar, poucas vezes tive tanta vergonha em ser brasileiro. Andar pelas ruas de Montevidéu e ver meus compatriotas empinados em seus saltos-agulha, ostentando chapéus de turista europeu, fotografando tudo nos lugares e momentos mais inadequados, invadindo lojas em busca de promoções, gritando e rindo dos hábitos e costumes uruguaios, tirando onda de “somos primeiro mundo” nas praças montevideanas (mais limpas e civilizadas que qualquer praça aqui do “primeiro mundo”), jorrando dinheiro em tudo que é fútil, visitando todos os lugares-clichê e ignorando toda a “cultura local”, entrando em museus para dar risada e esculhambar os simpáticos guias turísticos, se enchendo de sacolas carregadas de “lembrancinhas” (reconhecer brasileiros é fácil: basta identificar os seres segurando o maior número de sacolas possível) e falando um português rápido e cheio de gírias, justamente para dificultar a vida dos nativos, é triste. Tão triste quanto visitar o Museu Torres Garcia – dedicado à obra de um dos grandes artistas uruguaios – e presenciar uma brasileira, cheia de sacolas e com ar de madame, ordenar para a balconista da loja de souvenires: “me diz aí quem é esse tal de Torres”. Brasileiros…)
Algo me diz – e aqui encerro este texto eternamente incompleto – que voltarei muitas e muitas vezes à Montevidéu. Um dia, se possível, quero morar lá. É um lugar tranquilo e honesto, bom para viver feliz e sem pressa ao lado do que (e de quem) se gosta. Viveria tranquilo no Uruguai, acordando cedo para ouvir rádio e tomar mate, caminhando pela Rambla, comprando laranjas e salame na Tristán Narvaja (mais que uma feira, um universo à parte), assistindo à Francis Andreu na Sala Zitarrosa e acreditando, afinal, que Gardel é mesmo uruguaio.
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